Godheim
Willian Vailant. Insanamente cético, exageradamente preguiçoso, inconsequentemente critico, audaciosamente romântico, anonimamente revolucionário, desacorrentado do ordinário. Já tirou sururu de pedra e sabe fazer fogueiras. Adora chupar ostras. Amigo dos texugos e inimigo das doninhas. Fotógrafo por hobby. Escreve por hobby. Mergulha por amor. Estuda e trabalha para pagar a pena.

Na solidão do quarto, minha condição humana lateja na relva de estrelas e me faz pensar no tipo de árvore que meu corpo vai alimentar quando morrer. Com o nariz gelado e a mente quente, pareço-me mais com uma pastagem ruiva na tundra ártica. Entretanto, quando anseio pela eternidade meus restos claramente desejam erguer uma sequoia milenar, tão grande que suas sombras atrairiam todo tipo de pessoas para cantar em volta de seu tronco. Decidido a fazer algo que dure mais que minha passagem, interrompo as observações e pego uma folha de papel para entender em escrito o que não consigo compreender em consciência. A cabeça lateja em reflexão e o caminho que inspirara-me uma vez, agora me mergulha em insanidade.
De repente, me vejo sentado em uma poltrona real no centro de meu covil. Em resposta rápida de socorro, abandono todas as personalidades alternativas que caminharam comigo em épocas de estabilidade mental e externo-as na minha realidade extraordinária.
A única que consigo reconhecer imediatamente, talvez pela sua clara intimidade com minha condição humana; uma ninfa sedutora rebola vulgarmente por trás de mim e senta no meu colo. Sinto sua língua vagarosamente infectar-me sem misericórdia, como se desenhasse uma marca de forca ou de corte por todo meu pescoço.
– Sente e espere… – A Enfermidade sussurra. Tirando meus dedos da caneta e lendo a minha mão – você não vai durar muito mesmo, então para que se esforçar?
– De fato, estou morrendo… – Lamento.
Meu lamento causa atraso no papel, e, ao notarem, logo me mandam outra aparição me cobrar por progresso. Eis que, totalmente silencioso, um fantasma vestido, ora para o inverno, ora para o verão, sai do meu guarda-roupa para o relento. Seu corpo exibiu lentamente um cardápio de personagens de diversas etnias e culturas diferentes, enquanto sua face alterna em expressões extremas de emoção e seus passos seguem leves pelo tapete. Ele para perto da janela, se põe em órbita com meu trono e corrigi sua postura para a de um militar de patente elevada, apesar de ostentar um sorriso esticado de uma menina que ainda está trocando os dentes de leite.
Eis que respondo para o enviado, que claramente expôs seu título no momento em que trocou de corpo pela décima vez:
– Nenhum avanço por aqui, capitão! – Atualizo de prontidão. O suor escorre da testa junto com minhas inspirações tão necessárias.
– Parece que não haverá nenhum, de qualquer forma. – O Capitão da Humanidade responde.
– Mas… Eu estou esperando!
– Sei disso. Todos nós estamos. – Encerrou e voltou de volta à minha órbita.
– Estou morrendo… – Lamento.
A porta do quarto acerta furiosamente a parede e um jovem com cabelos tão longos quanto a língua entra por ela salivando sua filosofia como se fosse vinho potável.
– Morrerá certamente, mas viva com ardor suas últimas horas! Deite a folha e olhe-a sem piedade. Com vigoroso tesão, rabisque sua ideia como uma faca rabisca a carne. – Instruiu o Poeta Violento.
Ergo-a então, como dizia a instrução e começo a rabiscar qualquer coisa sem paixão.
– Assim não dá! A felicidade não vem! Como devo escrever então? Essa exaustão apodrece em minhas veias e me faz seu refém! – Protejo-me em desculpas.
– Tanta decepção… Se não queres mais a arte, rasgue-a então! – Braveja o poeta, coberto de emoção.
– Estou morrendo… – Lamento de antemão.
Paro um instante em questão:
– De que morrerei? Será de lamentos? – Pergunto-me – Não será de gripe no entanto, pois esta me namora há tempos.
– Cirrose então? – Sugeriu a Enfermidade esguia.
– Não, não. Amantes não ficam bem quando têm de chorar sobre o caixão.
– Mesmo assim, vai morrer! – Ela gargalhou.
– Tão certo… – Sussurrei.
O poeta se arde em raiva, rasga sua camisa e solta da gaiola de costelas um pombo tão branco quanto o papel em minha mão e tão sujo quanto as palavras rabiscadas.
– Rasga! Rasga! Rasga! – A ave grasna. Partindo o céu e meus sentidos com suas palavras de solução.
– Rasga! – Ela insiste.
– Mas eu ainda nem comecei! – Protesto. 
Deveria aprender: protestar não funciona.
Amargando em aflição, acabo acatando minha angústia. A folha dividida sangra em pedaços pelo chão. Deixo a ninfa de lado e me levanto do trono em desespero.
– Vá! Vá! No limbo ela se preencherá de menos indecisão, e esperando-me, acredito. Não preciso de seus agouros para provar minha disfunção!
Mais uma vez eu não terminei minha composição. E antes nem tivesse começado, se eu soubesse que me afligiria tanto assim a falta de inspiração. A fim de mais escusas me retiro na vergonha, para espera a sina de todos orbitando o trono.
– Estou morrendo… – Lamento.
Sem nenhum rodeio e totalmente desavisado, o último convidado chega, aproxima-se do Capitão para ser atualizado e logo então se impera, como se guardasse um sermão à vera, durante toda sua velhice, próprio para aquela ocasião. Grita do saguão, e todo mundo o escuta.
– Já amou algum broto, guri?
Pensei por um momento.
– Já plantei feijão em algodão, se é de brotos como eu que perguntas. Mas nunca amei meu cultivo, não, senhor.
O pretensioso senil logo se envereda pela minha ingenuidade.
– Falo de mulher, rapaz. – Ele gargalhou – Mas não deixe escapulir o entendimento de seus brotos!
– Conheço mulheres sim, mas confesso que desisti de compreender tal entidade. Já as amei em sofrimento, senhor. Entretanto, só desejo confessar em poema minhas felicidades, prefiro morrer a escrever sobre dor.
– Lamento, lamento. Olhe seu estado! Não já estais morrendo? Porque não uma amargura no papel, se esta te libertará do passado?
– Estou morrendo… É verdade! – Me animo morbidamente com a única certeza que alcancei.
– Então, vá! Redija em estatística quantas lanças estão empaladas no seu corpo. Sintetize em realidade o mesmo veneno que julgas amante!
– Não quero! Não quero! – Berro.  
Deveria aprender: berrar não funciona.
– Vai chegar… Estou morrendo… – Pensei alto me debatendo.
– Sei disso. – Disse meu amor disfarçadamente de volta no trono. Aparentemente escondida em toda minha desolação.
– Todos nós sabemos. – Declararam todos convidados.
A Enfermidade se levanta e me guia de volta para a cadeira imperial.
– Sente aqui, amor, porque em pé cansa. – Ela informou. Tomando a liberdade de me apunhalar com o vocativo agora que sua magia me nublava.
“Amor…” A breve menção me fez estremecer. Tanto disso já foi dito por tanta gente! Não escreverei sobre tais elegias!
– Estou morrendo… – Balbuciei e sentei.
A ninfa sedutora volta ao meu colo. Sentado em plena destruição eu reflito, e sem dor em parte alguma, me pergunto como estou.
– Estou bem, obrigado. – Respondo calmo – E… Estou vivo, obrigado! – Agradeço com um berro.
Me levanto da cadeira rapidamente, como nunca me levantei antes. De repente todo tempo que me restava soava como um presente irrecusável.
– Mas você vai morrer! – A Enfermidade bravejou, tentando me arrastar de volta com sua língua mansa para o trono – para que se exaltar?
– Vou morrer… é verdade. – Respondi – mas agora estou vivo e devo aproveitar essa chance enquanto posso esperar a morte de pé.
Olhei para as entidades no saguão.
– Capitão? – chamei-o decidido.
– Vejo que temos novidades por aqui. – ele responde, assumindo a imagem de um monge satisfeito, com olhos pesados e um sorriso de agradecimento. Passa a mão por dentro de suas vestes e me entrega uma nova folha.
– Não sairei daqui até molhá-la completamente de lágrimas! – Prometi.
– De tinta, não? – Perguntou sobriamente o Poeta Violento.
Encarei sua feição patética e bravejei:
– Exatamente! De lágrimas!

—— Martin Olhos Negros.

"Estou morrendo, é verdade. 
Não da gripe que me assola, 
diga-se de passagem.”
"Mas quem clama por mim além de vós?
Ó colchão,
Ó sofá!”
"Deite e espere…" Ela sussurra. 
Novamente a Enfermidade leu minha mão.
"Estou morrendo…"

Alguém me cobra novidades, 
eis que respondo:
 ”Nenhum avanço por aqui, capitão!”
"Parece que não haverá nenhum,
 de qualquer forma.”
"Mas… Eu estou esperando!"
"Sei disso, todos nós estamos" 
Disse o Capitão da Humanidade.
"Estou morrendo…"

"Erga a folha, 
olhe-a sem piedade,
rabisque sua ideia como uma faca rabisca a carne.”
Disse o Poeta Violento.
Ergo-a então,
como dizia a instrução.
Apodrece exaustão no sangue.
"Estou morrendo…"
"Não de gripe no entanto,
pois esta me namora a tempos.”
"Febre então?" 
Sugeriu a Enfermidade.
"Não, não. Muita areia pro meu caminhão."
"Mesmo assim, vai morrer!" Gargalhou.
"Tão certo…" Sussurrei.

"Rasga! Rasga! Rasga!"
Um pombo tão branco quanto o papel
parte o céu e meu sentidos.
"Rasga!"
"Mas eu ainda nem comecei!" 
Protesto. Deveria aprender, protestar não funciona.
Levo a folha com tanto potencial
direto para o limbo.
A lixeira é tabelada. Uma cesta.
"Três pontos! Três pontos!" 
O pombo grasna.

"Sente aqui, meu amor. 
Espere sua vez, ela vai chegar.”
"Não quero! Não quero!" 
Berro. Deveria aprender, berrar não funciona.
"Vai chegar… Estou morrendo…"
"Sei disso." Meu Amor disse.
"Todos sabemos." 
Declararam todos sentados.
"Sente aqui a amor, porque em pé cansa."
"Estou morrendo…" Balbuciei e sentei.
Willian Vailant - Diálogos de um moribundo recém-nascido.

"Estou morrendo, é verdade. 

Não da gripe que me assola, 

diga-se de passagem.”

"Mas quem clama por mim além de vós?

Ó colchão,

Ó sofá!”

"Deite e espere…" Ela sussurra. 

Novamente a Enfermidade leu minha mão.

"Estou morrendo…"

Alguém me cobra novidades, 

eis que respondo:

 ”Nenhum avanço por aqui, capitão!”

"Parece que não haverá nenhum,

 de qualquer forma.”

"Mas… Eu estou esperando!"

"Sei disso, todos nós estamos" 

Disse o Capitão da Humanidade.

"Estou morrendo…"

"Erga a folha, 

olhe-a sem piedade,

rabisque sua ideia como uma faca rabisca a carne.”

Disse o Poeta Violento.

Ergo-a então,

como dizia a instrução.

Apodrece exaustão no sangue.

"Estou morrendo…"

"Não de gripe no entanto,

pois esta me namora a tempos.”

"Febre então?" 

Sugeriu a Enfermidade.

"Não, não. Muita areia pro meu caminhão."

"Mesmo assim, vai morrer!" Gargalhou.

"Tão certo…" Sussurrei.

"Rasga! Rasga! Rasga!"

Um pombo tão branco quanto o papel

parte o céu e meu sentidos.

"Rasga!"

"Mas eu ainda nem comecei!" 

Protesto. Deveria aprender, protestar não funciona.

Levo a folha com tanto potencial

direto para o limbo.

A lixeira é tabelada. Uma cesta.

"Três pontos! Três pontos!" 

O pombo grasna.

"Sente aqui, meu amor. 

Espere sua vez, ela vai chegar.”

"Não quero! Não quero!" 

Berro. Deveria aprender, berrar não funciona.

"Vai chegar… Estou morrendo…"

"Sei disso." Meu Amor disse.

"Todos sabemos." 

Declararam todos sentados.

"Sente aqui a amor, porque em pé cansa."

"Estou morrendo…" Balbuciei e sentei.

Willian Vailant - Diálogos de um moribundo recém-nascido.

"The History Of A Cheating Heart"
Damon Albarn
Everyday Robots
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Godheim turned 3 today! YAHOOOOO 

Godheim turned 3 today! YAHOOOOO 

mar-ciano:

 O vazio regia a dimensão sem imensidão. Olhando de fora deitado na areia da praia embaixo de uma árvore, Martin viu o céu; Um plano invariável e sem nuvens… Limpo. Com pontos brilhantes na imensidão épica, profunda como cinza. A lua estava como uma grande luminária japonesa, acidentada e coberta de cicatrizes. Sua sombra pálida deitava no tapete de pedras da praia elevando a mente de Martin para o manto sombrio, como numa apoteose de admiração. Escorado na árvore ele se coroou com as constelações e afogou sua consciência na brisa praiana. Seu destino parecia mais sombrio do que o céu daquela noite, mas aquele momento trouxe abonança para seus temores.
 Bem sabia que viveria só pela novidade, nada mais lhe interessava tanto quanto o susto da descoberta. Ele desistiu de deixar um legado… Enquanto jazia na areia ele se tornou excêntrico aos metódicos.
 Sua mente precipitou das estrelas e caiu em direção ao seu corpo, atando-o novamente na realidade. Enquanto jazia na areia, seu amigo Bob jazia embriagado ao seu lado…
 Enquanto jazia na areia, ele jazia igualmente embriagado.

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(via hmseila)

 

Mila Manara!

Mila Manara!

"

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

"
Carlos Drummond de Andrade  (via p-o-e-s-i-a-s)

(via aexruiva)